As motos elétricas vêm ganhando espaço quando o assunto é mobilidade no Brasil, impulsionadas por crescimento nos emplacamentos e maior atenção à sustentabilidade. Ainda assim, o segmento enfrenta entraves que vão além dos números, envolvendo preço, desempenho, infraestrutura, regulamentação e confiança do consumidor.

Falar de motos elétricas no Brasil é sempre um desafio. E as questões são muitas, desde problemas que aconteceram recentemente com Voltz, que até então era considerada uma das maiores promessas em termos de eletrificação no país, seja por conta das dúvidas em relação ao licenciamento e CNH.
Quem vai responder à diversas dúvidas a respeito das “elétricas” é Silvio Rotilli, CEO e cofundador da Auper, marca com desenvolvimento iniciado no Canadá e que já possui linha de montagem em Santa Catarina, responde a dúvidas frequentes sobre o mercado. Segundo a empresa, as primeiras motos elétricas da Auper estão previstas para entrega em 2026. Assista ao vídeo no final do artigo.

As motos elétricas são mais caras que as motos a combustão?
O preço das motos elétricas varia de acordo com a categoria e o nível de desempenho. No Brasil, existem modelos elétricos, desconsiderando scooters, a partir de cerca de R$ 16.000. Esses veículos costumam oferecer potência média de 3 kW (aproximadamente 4 cv), velocidade máxima de 90 km/h e autonomia em torno de 50 km por bateria, considerando o modo esportivo.
Segundo o executivo, esse tipo de configuração não tem atendido plenamente às necessidades do motociclista brasileiro, principalmente em relação a desempenho, qualidade construtiva, durabilidade e confiabilidade. Quando se observa o segmento de motos elétricas com características mais próximas das motocicletas a combustão tradicionais, os valores iniciais sobem.
Um exemplo citado é a Auper 600 CE em sua versão de entrada, com preço a partir de R$ 25.900. O modelo oferece potência de 25 kW, velocidade máxima de 140 km/h e autonomia declarada de 100 km com bateria fixa.

Para efeito de comparação, a Honda CG 160, modelo mais vendido do país, tem preço sugerido a partir de R$ 19.520 no site oficial da marca, podendo chegar a cerca de R$ 22.000 nas concessionárias, dependendo da região. O comparativo indica que existem motos elétricas mais baratas no mercado, mas com desempenho inferior, enquanto os modelos que buscam atender às demandas do usuário brasileiro tendem a ter preço inicial mais elevado devido ao uso de tecnologias mais avançadas.
Por outro lado, Rotilli destaca que o custo total de propriedade das motos elétricas pode ser menor ao longo do tempo, considerando economia com combustível, manutenção e outros custos operacionais.
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O mercado de motos elétricas no Brasil está realmente crescendo?
Os dados oficiais confirmam a expansão do segmento. No primeiro trimestre de 2025, o mercado de motos elétricas registrou crescimento de 104,74% em relação ao mesmo período de 2024. Até novembro de 2025, foram emplacadas 7.643 unidades eletrificadas, número 15% superior ao registrado em todo o ano anterior.
As informações são da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) e da Abraciclo, entidade que representa as montadoras instaladas no Polo Industrial de Manaus. Apesar do avanço percentual expressivo, o volume absoluto ainda é considerado baixo quando comparado ao mercado total de motocicletas.
Existem benefícios fiscais para quem compra motos elétricas?
Os incentivos fiscais para motos elétricas variam conforme o estado e, em alguns casos, o município. No Distrito Federal, Paraná e Rio Grande do Sul, há isenção total do IPVA para veículos elétricos. Em Mato Grosso do Sul, o desconto chega a 70%, enquanto no Rio de Janeiro a redução é de 75% no imposto.
Em São Paulo, não há isenção estadual para motos elétricas, mas a prefeitura da capital permite o estorno de até 50% da parte municipal do IPVA, desde que o veículo esteja registrado no município. Esses benefícios pontuais influenciam o custo final, mas ainda não configuram uma política nacional uniforme de incentivo.

O governo oferece programas de crédito para a compra de motos elétricas?
Até o momento, não existem programas amplos de crédito governamental em vigor para a aquisição de motos elétricas por consumidores em geral. No final de junho de 2025, o Governo Federal anunciou a intenção de criar uma linha de crédito voltada a motocicletas elétricas, com foco em entregadores de aplicativo.
No entanto, o programa foi estruturado exclusivamente para uma empresa específica, a 99, deixando de fora outras plataformas e consumidores finais. Segundo o setor, a ausência de políticas mais abrangentes limita o potencial de crescimento das motos elétricas no país.
As motos elétricas já representam uma parcela relevante do mercado?
Apesar do crescimento recente, as motos elétricas ainda correspondem a menos de 0,5% do mercado total de motocicletas no Brasil. O dado reforça a avaliação de que o segmento está em fase inicial, mesmo com taxas de expansão elevadas.
A frota nacional segue amplamente dominada por modelos a combustão, especialmente de baixa e média cilindrada, utilizados tanto para deslocamento urbano quanto para trabalho.
O que impulsiona o crescimento das motos elétricas no Brasil?
Entre os principais fatores estão a busca por alternativas de mobilidade com menor custo operacional e menor impacto ambiental, sobretudo em grandes centros urbanos. A economia com combustível e a redução de ruído também são citadas como atrativos das motos elétricas.
Por outro lado, o crescimento abaixo do potencial é atribuído a entraves estruturais. Segundo Rotilli, muitos modelos disponíveis são projetados para o mercado asiático e não se adaptam plenamente ao perfil do motociclista brasileiro. Há ainda questionamentos sobre a qualidade dos componentes, confiabilidade e desempenho quando comparados às motos a combustão.
Outro ponto mencionado é a limitação da infraestrutura, especialmente em sistemas de troca de baterias, que podem acelerar a degradação do componente mais caro do veículo. Para o executivo, a transição energética só ocorre quando o consumidor percebe ganhos claros em desempenho, economia, segurança e praticidade, e não apenas no aspecto ambiental.

Motos elétricas são realmente mais sustentáveis?
As motos elétricas apresentam vantagens ambientais durante o uso, pois não emitem gases poluentes e, no caso brasileiro, utilizam uma matriz elétrica majoritariamente renovável. Além disso, os motores elétricos operam com maior eficiência energética do que os motores a combustão.
No entanto, há controvérsias. Uma parcela significativa do impacto ambiental ocorre antes do veículo entrar em operação, envolvendo a extração de matérias-primas, a fabricação das baterias, o transporte internacional e a durabilidade dos componentes. Esses fatores podem reduzir ou até anular parte dos benefícios ambientais.
O modelo de troca de baterias, bastante utilizado no Brasil, também é alvo de críticas. A necessidade de manter grandes estoques de baterias em circulação, muitas vezes sem rastreabilidade adequada, aumenta o impacto ambiental e dificulta a gestão do ciclo de vida do componente.
Qual é a preocupação com o descarte das baterias?
O descarte de baterias é considerado um dos pontos mais sensíveis na discussão sobre motos elétricas. As baterias de íons de lítio contêm metais como lítio, cobalto e níquel, que podem causar danos ambientais e à saúde se descartados de forma inadequada.
No Brasil, a infraestrutura de coleta e reciclagem ainda é limitada. A ausência de uma cadeia bem estruturada compromete a proposta de sustentabilidade da mobilidade elétrica. No caso do sistema de troca de baterias, a falta de responsabilidade clara sobre o componente tende a reduzir sua vida útil.
Especialistas defendem a necessidade de rastreabilidade completa, recondicionamento e reciclagem em sistemas especializados, o que exige regulamentação, tecnologia e logística adequadas.

As grandes marcas tradicionais já atuam no segmento?
Segundo a Fenabrave, entre as 15 motos elétricas mais emplacadas no início de 2025, não há modelos das duas maiores fabricantes do país, Honda e Yamaha, que juntas concentram mais de 80% do mercado de duas rodas.
A Yamaha lançou no início de 2025 a scooter elétrica Neo’s, com potência de 3,3 cv, autonomia de 71 km, velocidade máxima de 45 km/h e preço a partir de R$ 33.990. O modelo se enquadra como ciclomotor elétrico. A Honda, por sua vez, já apresentou modelos elétricos na Europa, mas ainda não iniciou operações no Brasil.
Por que o setor ainda é descrito como “engatinhando”?
Apesar do crescimento, a mídia e o próprio mercado apontam que as motos elétricas ainda representam uma fatia muito pequena da frota nacional. Também são recorrentes as críticas à qualidade, ao desempenho e à dependência de projetos importados e adaptados.
Para Rotilli, o setor ainda carece de protagonismo tecnológico capaz de resolver problemas estruturais, em vez de soluções temporárias. Segundo ele, a adoção em larga escala só ocorrerá quando as motos elétricas entregarem desempenho, qualidade e experiência superiores às opções a combustão, tornando a transição uma escolha racional e vantajosa para o consumidor brasileiro.
No atual cenário, as motos elétricas seguem em expansão no Brasil, mas ainda enfrentam desafios relevantes para se consolidarem como alternativa dominante no mercado de duas rodas.
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